Como você teve a idéia de adaptar o romance de João Guimarães Rosa?

Conheço esse livro há anos, e, desde a primeira vez que li, tive vontade de fazer um filme. Mas a simples idéia de adaptar Guimarães Rosa, e ainda por cima para um primeiro filme, me parecia uma loucura. Os anos passaram e esta história nunca saiu da minha cabeça. Até que, um dia, resolvi tomar coragem e tentar. Fazer um filme é uma coisa tão enorme, tão difícil, a gente precisa estar tomado de desejo, ter uma vontade inabalável de contar aquela história, falar daquele assunto, e esse livro era assim pra mim. Apesar de a história ser uma espécie de faroeste, de se passar num mundo de vaqueiros, bem distante do meu, tenho o sentimento de entender profundamente as sensações da infância que o livro conta. Sempre me senti íntima do Miguilim, como se o conhecesse muito bem.

Como foi o processo de roteirização?

No início, quis trabalhar só com o que lembrava do livro, sem relê-lo. Achei que era importante proteger a ligação profunda que eu tinha com este livro, o que tinha ficado gravado em mim. Só num segundo momento voltamos para ele – escrevi o roteiro junto com a Ana Luiza Martins Costa, grande conhecedora da obra de Guimarães Rosa –, quando já havia o início de alguma coisa. O filme não é exatamente uma adaptação, acho que é mais uma conversa com o livro. O roteiro não parou de mudar em cada etapa da realização do filme e as muitas viagens pelo sertão foram fundamentais para mantê-lo perto de uma coisa viva.

Resolvi manter em segredo que se tratava de uma adaptação porque tinha medo que a idéia de ser uma obra tão importante intimidasse as pessoas e criasse uma relação solene com o trabalho. Acho que onde fomos mais fiéis ao Guimarães Rosa foi na maneira de nos relacionarmos com o sertão, com as pessoas. Foi uma relação muito orgânica. Aconteceu até de algum ator falar alguma coisa numa cena que estava no livro e não no roteiro (sem saber de nada, já que ninguém leu o roteiro) ou então alguma coisa que estava em outro livro do Guimarães Rosa.

Ao mesmo tempo, todas essas precisões documentais não vinham de uma preocupação etnográfica: era uma maneira de nos aproximarmos desses personagens, de tentar contar melhor o que eles sentem. Acho que nos livros do Guimarães Rosa também é assim. Tem muitos detalhes sobre a natureza, a vida no sertão, mas o texto não é descritivo, tudo ali fala do mundo interno dos personagens. As paisagens do livro - e do filme - são para mim paisagens internas.

O romance foi escrito nos anos 50, mas o filme parece atemporal e poderia muito bem se passar meio século atrás ou nos dias de hoje...

Quando a gente fala da infância, é muito fácil cair na nostalgia de um mundo desaparecido... O mesmo perigo existe quando se filma num universo rural, que está se transformando numa velocidade impressionante. E, além disso, o sertão também foi muito presente nos filmes do Cinema Novo. Então não é fácil filmar num ambiente tão carregado de sentidos.

Para mim, era muito importante que o filme se passasse nos dias de hoje. Foi inclusive o ponto de partida: saber se esta história ainda seria possível hoje, se ainda seria possível viver de uma forma tão isolada do resto do mundo. É por isso, aliás, que conseguimos trabalhar de uma maneira tão próxima do documentário, porque as pessoas desta região se reconheciam nesta história. Tem vários indícios no filme que mostram que ele foi feito nos dias de hoje. Os personagens usam camiseta, mascam chiclete e a casa é cheia de objetos de plástico. Na verdade, eles estão à margem da modernidade, como a maioria das pessoas. É isso o mais complicado. Da modernidade, eles recebem os restos: as camisetas promocionais, os copos de plástico baratos. Mas tem pouco ou nenhum acesso às escolas ou aos hospitais, como se vê no filme. Se eles tivessem acesso garantido às escolas e aos hospitais, a história do filme não poderia acontecer. É impressionante pensar que a situação ainda seja assim hoje.

Os personagens, sobretudo as crianças, se questionam muito sobre as noções do Bem e do Mal.

É uma região onde a educação religiosa tem um papel importante. São comunidades fechadas, as regras são mais rígidas, e chegar numa relação mais íntima com eles foi um longo e demorado processo. Mas tem também o fato de que estamos falando da infância. Quando você é criança, as regras são com freqüência a coisa mais misteriosa do mundo, e é difícil entender o que é certo e o que é errado. A gente passa muito tempo se debatendo com isso e tem a sensação presente de que as regras são diferentes para os adultos e para as crianças. Quando você é criança, isso pode ser difícil de entender e muitas vezes parecer uma grande injustiça.

Sem querer julgar os personagens, você mostra um pai muito violento...

É um homem rude, que considera a sensibilidade um luxo que ele mesmo não pode se permitir. É por isso que ele trata o filho de maneira tão dura e lhe diz que ele não tem o direito de se sentir superior ao resto da família. O que é importante é a dificuldade dos dois se entenderem. Ambos têm suas razões, mas vivem em mundos separados. Mas é preciso lembrar também que o ponto de vista do filme é o ponto de vista do Thiago, e que percebemos tudo que acontece por meio dele. A violência do pai é, então, multiplicada pela percepção que Thiago tem dela.

Existe uma dimensão documental óbvia na sua direção: não há luz artificial, nem música, os atores são extremamente naturais, etc.

É, mas eu não sou purista. Tanto numa ficção, como num documentário, é sempre uma questão de mise-en-scène. A “naturalidade” é provocada, construída. A única realidade que existe é a realidade interna de um filme. No caso deste filme, eu queria trabalhar de uma maneira mais crua e simples, porque achava que isto nos aproximaria dos personagens, e era assim que eu tinha vontade de contar essa história.

Como eu venho do documentário, para mim era importante trabalhar as relações entre as pessoas e criar tensões dramáticas que não me parecessem artificiais. Durante a filmagem, todo o elenco estava sempre presente no set, mesmo que não aparecesse na cena. A mãe consolava Thiago fora de quadro quando ele levava uma bronca, mesmo que eu não a filmasse. Muito trabalho foi realizado fora de quadro para manter as relações entre eles sempre em primeiro plano. Isso permitia aos atores não se sentirem dominados pelo dispositivo do cinema, sem, no entanto, jamais esquecer que estávamos fazendo um filme.

Você demonstra muito respeito com a temporalidade própria aos personagens e a esta região...

Muitas vezes, os filmes parecem um acúmulo de situações extraordinárias. A paisagem mais deslumbrante, na luz mais bonita, com a música que a gente mais gosta, nas situações mais extremas… “Cinematográfico” parece querer dizer “espetacular”. Tenho a impressão de que tem os filmes que se parecem com cinema e aqueles que se parecem com a vida. O segundo grupo me interessa mais. E na vida tem muita coisa que não é espetacular…

Tivemos o maior cuidado com isso, em todos os níveis. Filmamos basicamente com três lentes. As roupas eram as roupas deles, os brinquedos também. Era um esforço cotidiano para ficar numa escala humana e não cair na “folclorização”. Até as pessoas da região, com a melhor intenção do mundo, quando ouviam dizer que se tratava de um filme, nos traziam objetos antigos, tudo o que poderia parecer mais bonito ou "autêntico". Ou, então, sugeriam paisagens inacreditáveis. Mas eu não estava procurando cartões postais. A natureza não era uma paisagem que a gente contemplava, e, sim, um lugar de trabalho – e quase sempre de trabalho duro. Veja bem, não era por aquilo ser mais ou menos real – de qualquer maneira se trata de um filme, não de um retrato da realidade – mas era por ser mais humano.

O que nos ajudou muito foi lidarmos com a rotina da fazenda, que continuou funcionando durante a filmagem. As refeições eram organizadas diariamente, os vaqueiros cuidavam dos animais, enfim, esse cotidiano alimentou o filme, nos manteve sempre perto da vida, apesar da gigantesca operação que é uma filmagem…

Como escolheu o menino que interpreta Thiago?

Eu achava essencial que o primeiro contato com as pessoas que iam atuar no filme fosse comigo, que fosse uma relação pessoal, direta. Para mim, o contrato com uma pessoa que vou filmar é um contrato de confiança, e é nesse momento que ele é assinado: no primeiro contato. Ainda mais com crianças. Eu queria que o ponto de partida fosse uma relação entre mim e eles, sem a intervenção de outros adultos. Era fundamental para desenvolver tudo o que fizemos depois. Por isso, eu resolvi procurar eu mesma o elenco. Junto com Ana Luiza Martins Costa (co-roteirista), fiz várias viagens ao sertão com essa intenção.

Às vezes, ao chegar numa escola, eu passava pelas salas para escolher as crianças que eu queria conhecer melhor. Quando vi o Thiago pela primeira vez, sentadinho num canto da sala, fiquei impressionada com o olhar dele. Era um olhar de alguém que parecia estar dizendo “não é possível que o mundo seja assim”. Tive a impressão que tudo o surpreendia. Aquilo me impressionou. Passei uma hora com ele e depois perguntei se podia visitá-lo em casa, naquela tarde. Ele disse que sim, mas não acreditou que eu realmente fosse. Nunca vou esquecer a cara de espanto dele, quando viu a gente chegando. Ele mora num lugar bem isolado, sem vizinhos, difícil de chegar, parecido com a fazenda do filme.

O encontro com Thiago me fez acreditar que o filme era possível. Quando se trabalha com não-atores, a gente acaba encontrando com eles no meio do caminho: não temos controle de tudo e uma parte importante do personagem se torna o que a própria pessoa é. Foi por isso que resolvi manter os nomes deles. Havia uma verdadeira mistura entre eles e seus personagens.

Como foi a filmagem?

Reescrevíamos o roteiro todos os dias no set. Assim que uma cena ficava pronta, ela se tornava tão concreta que tínhamos que repensar as outras. Achei isso fascinante. Eu tinha a sensação de algo muito vivo. Claro que é muito complicado administrar tudo isso numa filmagem, onde há tantas coisas em jogo, tanta pressão. Mas as tensões entre as obrigações e os riscos foram boas para o filme. Nada era realmente controlável: imagina um set com crianças, animais, muitas externas, não-atores…. A gente trabalhava constantemente no risco e acho que esse risco foi importante para o filme