A primeira pergunta que me fiz foi: será que esta estória, escrita nos anos 50, poderia ainda acontecer hoje? E, se pudesse, como ela seria e qual seria a cara desses personagens?
Durante um ano e meio fiz várias viagens pelo sertão de Minas. Inicialmente para conhecer as pessoas, o lugar, em seguida para procurar as crianças do filme.

Achava fundamental que meu primeiro contato com as pessoas fosse direto, sem passar por intermediários tais como produtores de elenco ou de locação. Porque se não existisse uma relação de confiança muito sólida entre eu e eles, seria impossível trabalhar com atores não-profissionais.

Fiz as viagens com a Ana Luiza Martins Costa – co-roteirista do filme, que conhecia bem a região. Iamos nas escolas rurais do Norte de Minas, algumas perdidas na mata, onde as crianças vão a cavalo, ou caminham horas para chegar. As professoras me deixavam trabalhar com pequenos grupos formados na hora. Na época, dizíamos apenas que estávamos fazendo uma pesquisa com crianças no sertão, sem ainda falar que isso viraria um filme se tudo desse certo.

Ao todo conheci em torno de mil crianças.

Numa segunda fase selecionei um grupo de 25, vindas de lugares diferentes do sertão mineiro. Dentre as 25 tinha um grupinho de 7 que eram as minhas preferidas, mas precisava conhecê-las melhor. Será que elas aguentariam fazer um filme? E porque elas teriam vontade? O cinema não faz parte da vida delas, e para muitas nem mesmo a televisão.

Algum tempo depois, reunimos esse grupo numa cidadezinha e, durante duas semanas, fizemos pequenas oficinas, que me permitiram escolher os meninos. Foi uma experiência humana riquíssima. As estórias daquelas crianças, suas personalidades, seus comentários, foram desenhando o universo no qual o filme se construiu.

Dois meses depois fizemos outra oficina, dessa vez com homens e mulheres da região, vaqueiros, senhoras, enfim candidatos a todos os personagens do filme que trabalharam lado a lado com atores profissionais e com as crianças. Todo mundo junto. Era uma troca: de um lado os jovens atores – acostumados com a situação de estar numa oficina –, embarcavam com mais facilidade nos exercícios propostos. De outro os não-atores faziam todos os exercícios sem interpretar : eles choravam e riam de verdade, trazendo uma dimensão humana diferente ao trabalho.

A escolha das locações foi em função das relações com as pessoas da região. Não era uma questão de paisagem. Queria filmar aonde a gente tivesse estabelecido as relações mais sólidas, aonde eu me sentisse em casa na casa das pessoas.

A escolha de filmar numa fazenda de verdade não foi por razões etnográficas, mas para permitir que o elenco compartilhasse um cotidiano. Eles trabalhavam juntos, cuidavam dos bichos, capinavam. A casa funcionava. Quando aos poucos a equipe técnica foi chegando, eles tinham vontade de pedir licença pra entrar, como se estivessem chegando na casa de alguém, e não num set que estava ali à disposição.

A maior parte das pessoas que atua no filme não são atores profissionais. A maioria das crianças e dos vaqueiros nunca foi ao cinema. MUTUM é o resultado de um longo trabalho de preparação, no qual o elenco viveu junto na fazenda onde a história acontece. Aos poucos formaram uma família, antes mesmo do início da filmagem. Dividiram uma experiência de vida, diretamente ligada à história contada no filme. Ninguém leu o roteiro. Tudo foi transmitido oralmente e o trabalho de atuação se construiu a partir da proximidade entre a vida deles e a de seus personagens.